Últimos dias em Milão, uma mala já arrumada, a outra para ser arrumada.
Esses dias tem sido dias de despedida, tanto das pessoas como das coisas daqui, dos pequenos hábitos criados, da rotina. E por mais que eu esteja muito feliz por voltar para o Brasil, por saber que em breve eu vou ver vários rostinhos conhecidos que me farão sorrir e vou ter várias novidades para contar e ouvir; eu também estou um tanto triste.
Estou conformada, meu tempo aqui está acabando, e eu acho que vivi tudo o que podia/devia e ainda muito mais. Não me arrependo de nada. Mas dizer tchau as pessoas que você gosta e deixar um pedaço da sua vida pra trás não é nunca fácil. É uma grande construção em que você investiu muito tempo e trabalho, e agora que ela está pronta, tudo o que ue te resta é adimirá-la de longe, enquanto lembra de como foi colocar cada tijolinho…e enquanto isso partir para a próxima obra.
É difícil ver os rostos amigos que me perguntam se eu vou voltar, e responder que espero muitissimo que sim, mesmo sem saber quando ou como isso vai ser. Tenho preferido me despedir com um ‘grazie mille per tutto’ seguindo de um ‘alla prossima!’. Eu tenho tentado ser forte, e sorrir sempre, pensando em quanto feliz eu sou por ter vindo até aqui, vencido todas as adversidades possíveis e ainda conhecido pessoas maravilhosas que estiveram ao meu lado sempre e que nunca me deixaram desistir.
Milão para mim vai ser sempre a segunda casa. Pode ser que no futuro surjam terceiras, quartas, quintas…mas a segunda vai ser sempre Milão. Milão é o meu caso de amor e ódio, e amor novamente. Não é a cidade das modelos e dos jogadores de futebol, mas sim a cidade dos estudantes modernosos do Politecnico, sempre reclamando do excesso de trabalhos; a cidade dos velhinhos e velhinhas bem arrumados que se encontram no tram e conversão sobre a vida; a cidade do sorvete e dos dias ensolarados no Sempione; dos aperitivos deliciosos. Milão pra mim é a cidade do amor a primeira vista, daqueles persistentes, que tiram seu folêgo…e é por esse amor que sempre vou lembrar daqui, eu acredito. O amor por está maravilha em mármore branco que se chama Duomo, enfeitado com a sua Madonina dourada lá no topo, como se fosse uma coroa. Eu lembro da primeira vez que o vi, e o encantamento nunca mudou desde então.
Acima de todas essas coisas, Milão é a cidade onde descobri que nunca estou sozinha, mesmo estando longe. Aliás, foi onde eu descobri que casa nem sempre é onde a gente mora, mas sim onde estão as pessoas que a gente gosta. Foi onde eu percebi que mesmo nos lugares e situações mais adversas você pode encontrar alguém para chamar de amigo, e que mesmo em uma sociedade fechada, conservadora e de trato pouco polido você pode encontrar as mais solícitas pessoas.
Milão foi onde eu descobri que muitas vezes a diferença geográfica é a única coisa que existe entre duas (ou mais) pessoas muito similares. Apesar de ser a cidade das liquidações enlouquecedoras, do salão de design absurdamente legal e da Rinascente, também foi a cidade onde encontrei amigos exatamente como aqueles que eu deixei no Brasil. Onde eu dificilmente me senti perdida. Foi a cidade onde eu cresci, amadureci e aprendi o que é ser adulto responsável (apesar de não demonstrar muito). Foi a cidade aonde eu vi que a maior parte dos meus valores estavam errados e que eu, apesar de ter saído de um lugar não tão reconhecido ainda, não deixo a desejar profissionalmente.
Levo comigo muitas boas lembranças, algumas boas lições aprendidas e várias pessoas que espero não perder.
Milão pra mim vai ser sempre a cidade que está a aproximadamente duas horas de distância (de avião ultra econômico) de todas as outras grandes cidades européias. E também a cidade onde eu dei o meu primeiro grande passo. E espero que não tenha sido o único.
=D
Comentário por Gian — fevereiro 11, 2010 @ 3:34 pm